Apogeus e declínios: para uma lição das terras do vale do Ave

No voo da rapina o ornitólogo encontra, claramente, dois tempos: um primeiro tempo
longo em que ela está a pensar muito etereamente na presa e um tempo vertiginoso onde
cada fibra da rapina se adensa para o objetivo.
Também este grupo pairou etéreo sobre o objetivo do trabalho – uma lição sobre
Narciso Ferreira e as terras e gentes do Ave e durante esse tempo nada de muito concreto foi
produzido, tendo apenas acontecido uma maturação. Tempo longo, indispensável.
Quando pairava lá muito alto, os olhos encontraram-se num ponto focal e eis senão
quando se anteviu esse objetivo, tendo então mudado todo o decurso da ação que de longa e
contemplativa se fez curta e incisiva. Sendo ave, picava para o objetivo, sendo um grupo, que é
do que se trata, reuniam a trabalho, em sessões debruçadas sobre a noite, com intenso labor e
respeitando a premissa de que é com suor que se procede a uma criação.
Neste caso reinterpretaram-se três textos e converteram-se para a linguagem do
teatro físico, uma forma quiçá menos conhecida de expressão. Ganhava corpo a peça que
agora fica disponível em formato vídeo. Três performances argamassadas por música clássica
onde o espetador pode encontrar pequenos monólogos, grandes irrupções de êxtase e muitas
segundas leituras.
Antes de encontrar o seu caminho no ciberespaço, esta peça teve corpo real e foi
apresentada para cerca de vinte turmas de alunos do quarto ano (ainda que um ato a cada
turma) e temos a certeza de que em cada situação protagonizada, cada menino viu
exatamente coisa ligeiramente diferente. O que é um espanto da fórmula humana e um hino
também.
Mas enfim, vejam no que deu.

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